Crônica · Festas
Carnatere, o carnaval de montanha
Blocos que sobem a ladeira, fantasias pensadas para o frio e uma cidade que se fantasia a novecentos metros de altitude: crônica do carnaval serrano.
Festa de verão · crônica do arquivo · Helena Vasconcelos, redação da serra

Carnaval de montanha é um carnaval ao contrário. Embaixo, no litoral, a festa é de calor, camiseta colada e meio-dia infinito; aqui em cima, é festa de casaco bonito: a fantasia se pensa com capa, o agasalho se fantasia, e a noite que no Rio é morna aqui morde as orelhas. E ainda assim, ou exatamente por isso, funciona: o Carnatere e os blocos serranos transformaram essa esquisitice climática em marca.
Como é um carnaval de altitude
A estrutura é clássica: blocos que se concentram e desfilam, bailes nos salões (os mesmos salões comunitários que no resto do ano recebem valsa e teatro) e uma programação que atravessa os dias de festa com feiras e matinês em família. O serrano está nos detalhes: o ponto de concentração com vista para o vale, o bloco que sobe a ladeira em vez de descer, a garrafa térmica de café dividindo a calçada com a cerveja.
O público é outro dos encantos. O carnaval da serra recebe as famílias da cidade, os veranistas de sempre e uma fauna nova de visitantes que descobriu que dá para sambar de xale. As edições recentes ganharam em criatividade de rua: baterias de bloco, cordões temáticos e uma tradição crescente de fantasias coletivas por quadra inteira.
Crônica de uma noite

A noite de que esta redação mais se lembra começou cedo (tudo na serra começa cedo) com um bloco infantil que atravessou o centro entre avós e carrinhos de bebê. Depois, a cidade esvaziou misteriosamente entre sete e nove: hora de jantar, de agasalhar as crianças e de os salões terminarem a decoração. Às dez, a explosão: três bailes simultâneos, ruas fechadas e o ar cheio de lantejoulas com fleece por baixo. De madrugada, a imagem definitiva do carnaval serrano: a fila do churros, uns vinte graus abaixo da avenida Atlântica, e ninguém disposto a trocá-la.
“No carnaval do litoral o corpo pede sombra. No da serra, pede capa.”
Dicas para o carnaval de montanha
- Vista-se em cebola. Camadas: a tarde de desfile é de sol, a noite de baile é de lã. A fantasia serrana perfeita tem botões.
- Reserve com meses de antecedência. A cidade enche no carnaval como no janeiro alto; o guia prático detalha temporadas e transporte.
- Siga o ritmo local. A festa acorda mais cedo que na capital e termina antes: o bloco das onze da manhã é tão importante quanto o baile das onze da noite.
- Planeje a volta de cada noite. Regra de ouro da nossa leitura de agenda, multiplicada em festa.
Contexto e memória

O carnaval serrano não nasceu com nome de marca: cresceu das festas de bairro, dos bailes dos clubes e da criatividade de invernos compridos. As edições cobertas neste arquivo, reunidas com as demais festas no arquivo de eventos realizados, mostram essa evolução: da concentração espontânea à programação estruturada, sem perder o tom de grande festa de comunidade que o distingue dos carnavais estrelados do litoral.
Quem quiser entender o destino inteiro pode começar por aqui: o carnaval é a serra em versão máxima, com o clima como personagem, a comunidade como elenco e a montanha como pano de fundo. E daí seguir para as trilhas do parque nacional, que nesses mesmos dias descansam da multidão e devolvem a serra ao seu público habitual: o dos que sobem a pé.
Até o próximo verão, a capa fica guardada. A serra já está ensaiando.
Quem sobe a ladeira atrás dos blocos em Carnatere talvez reconheça o mesmo impulso que leva alguém a atravessar o mundo pela primeira vez: escolher a estação certa, medir o ritmo e aceitar que o frio de novecentos metros também faz parte do figurino. A diferença é que, numa viagem longa, esses critérios práticos decidem o roteiro inteiro, e não apenas a fantasia da noite. Para quem começa a planejar esse tipo de estreia, vale consultar um roteiro de estreia no Japão que trata de estação, duração e ordem das etapas antes de comprar qualquer passagem.
Entre um bloco e outro, a cidade respira. Carnatere ocupa as ruas de Teresópolis com fantasias feitas para o frio da serra, e o ritmo dos ensaios define o calendário de quem participa. Fora do carnaval, essa mesma atenção ao método reaparece em outros formatos: os ateliers no chateau de Cazenac reúnem pintura, aquarela, fotografia, escrita, yoga, música, gravura e gastronomia em ateliês datados, com ritmo definido, no château de Cazenac, na Dordonha. São propostas distintas, uma na serra fluminense, outra no sudoeste francês, mas ambas partem da ideia de que criar junto, em datas marcadas, muda o que se produz.