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Cultura · Música

Reggae italiano: Sud Sound System e Salento

Como o reggae chegou à Itália, quem o tocou primeiro, o papel dos Sud Sound System no Salento e os discos dos Morgan Heritage após o Grammy de 2017.

O reggae chegou à Itália no fim dos anos 1970, pelas mãos de sound systems e de pequenos selos que distribuíam singles jamaicanos em Milão, Roma e Nápoles, antes que qualquer banda italiana gravasse o gênero. Os Sud Sound System, formados em 1989 em San Donato di Lecce, no Salento, são o grupo que transformou essa escuta em escola: cantam em dialeto salentino sobre bases dub e dancehall, e ligaram a tradição local da pizzica à batida jamaicana. Os Morgan Heritage, por sua vez, depois do Grammy de 2017 por "Strictly Roots", lançaram "Avrakedabra" (2017) e "Loyalty" (2019), discos que circularam nos palcos italianos. Para acompanhar essa história com reportagens de turnê e guias de concertos, existe um magazine italiano dedicado à música ao vivo, e a cena de sud sound system reggae salento aparece ali tratada como arquivo de shows, não como promoção.

Como o reggae chegou à Itália e quem o tocou primeiro?

A primeira onda é de importação, não de produção. Entre 1977 e 1982, lojas de discos em Milão e Roma encomendavam prensagens jamaicanas, e sound systems improvisados em centros sociais faziam circular versões dub de King Tubby e Scientist. O reggae entra na Itália pela escuta antes de entrar pelo palco.

A virada acontece em 1979, quando o grupo romano degli Africa Unite começa a tocar ska e reggae com letras em italiano. Em 1981, os napolitanos 99 Posse ainda não existiam, mas a cena de Nápoles já misturava punk e dub em porões do centro histórico. No norte, os Pitura Freska, formados em Veneza em 1983, cantam em dialeto veneziano e gravam "'Na bruta banda" em 1991, disco que vende mais de cem mil cópias e leva o reggae italiano à rádio nacional.

O primeiro caso documentado de reggae cantado em italiano é de 1980, com o single "Reggae" dos romani degli Undertones, mas a consolidação vem com os Africa Unite e o álbum "Lloyd". A partir daí, o gênero deixa de ser curiosidade de importação e passa a ter uma cena própria, com selos, festivais de verão e programas de rádio dedicados.

Quem são os Sud Sound System e por que contam para o reggae italiano?

Os Sud Sound System nascem em 1989 em San Donato di Lecce, província do Salento, como sound system antes de serem banda. O núcleo histórico é formado por Don Rico, Nandu Popu, Terron Fabio e Gopher, com o produtor Papa Leu. A escolha de cantar em dialeto salentino, e não em italiano padrão, é o que os distingue: o grupo trata a língua local como língua de música popular, no mesmo gesto com que os jamaicanos usam o patois.

O primeiro álbum, "Reggae Party", sai em 1993. Depois vêm "Comu na vota" (1996), "Lontano" (1999) e "Acqua azzurra" (2002). O som combina base dub, rub-a-dub e dancehall com a cadência da pizzica, a dança de taranta do Salento. Essa mistura não é folclore decorativo: é uma operação musical que coloca duas tradições de periferia em contato, a do Caribe e a do sul da Itália.

Para o reggae italiano, os Sud Sound System contam por três razões. Primeiro, porque mostram que o gênero pode ser cantado em uma língua regional sem perder a batida. Segundo, porque construíram uma ponte estável entre a cena jamaicana e o Mediterrâneo, tocando com artistas internacionais e levando o dialeto salentino a festivais fora da Itália. Terceiro, porque formaram público: os concertos do grupo, entre clubes e praças, são a porta de entrada de várias gerações para o reggae no sul do país.

Que álbuns os Morgan Heritage lançaram depois do Grammy de 2017?

O Grammy de 2017 na categoria de melhor álbum de reggae foi para "Strictly Roots", dos Morgan Heritage, lançado em 2015. O grupo jamaicano, formado pelos filhos de Denroy Morgan, já tinha uma longa história antes disso, com discos como "Miracle" (1994) e "More Teachings" (2001).

Depois do prêmio, a discografia de estúdio segue com "Avrakedabra", de 2017, gravado entre a Jamaica e os Estados Unidos, com participações de artistas como Busy Signal e R. City. Em 2019, sai "Loyalty", álbum que retoma o reggae roots com arranjos de metais e harmonias vocais próximas do estilo dos anos 1970. Em 2021, o grupo lança "Legacy", que fecha um ciclo de três discos em cinco anos.

Esses álbuns circularam na Itália em festivais de verão e em clubes históricos, e a recepção italiana se apoiou na familiaridade do público com o reggae roots jamaicano. A passagem dos Morgan Heritage por palcos italianos é um dos pontos em que a cena local se encontra com a tradição da ilha, sem mediação de grandes gravadoras.

O que a cena do Salento mudou no reggae italiano?

O Salento, entre Lecce, Gallipoli e Otranto, tem uma vida musical própria, ligada à pizzica e à Notte della Taranta, festival que desde 1998 reúne dezenas de milhares de pessoas em agosto. O reggae entra nesse calendário por contiguidade: mesmos palcos, mesmo público de verão, mesma economia de concertos ao ar livre.

Os Sud Sound System não são o único grupo dessa cena. Ao lado deles, projetos como os Nidi d'Arac e os Caracas misturam instrumentos acústicos mediterrâneos com base eletrônica. O resultado é um reggae que não imita Kingston, mas negocia com a tradição local: tambores de moldura, vozes em dialeto, tempos de taranta sobre riddim.

Essa negociação tem consequências práticas. Festivais de verão no sul da Itália passaram a programar reggae e world music na mesma noite, e o público de pizzica e o de dancehall se encontram no mesmo gramado. Para quem organiza concertos, isso significa uma temporada mais longa e uma bilheteria menos dependente de nomes internacionais.

Como se ouve reggae ao vivo na Itália hoje?

A rede de concertos de reggae na Itália se apoia em três tipos de espaço: clubes históricos nas cidades, festivais de verão em praças e parques, e eventos de sound system em centros sociais. A prevendita, a venda antecipada de ingressos, é o mecanismo padrão para os shows maiores, e costuma abrir semanas antes da data.

Os festivais de verão concentram a programação entre junho e setembro, com atenção especial ao sul. A Notte della Taranta, em Melpignano, é o maior deles e, embora seja dedicada à pizzica, programa regularmente artistas de reggae e world music. Em Roma e Milão, clubes como o Villaggio Globale e o Leoncavallo mantêm séries de concertos ao longo do ano.

Para o público, a informação prática é simples: verificar a prevendita, confirmar o horário de abertura e chegar cedo, porque muitos eventos são em pé e sem lugar marcado. Para quem escreve sobre música, a cena italiana oferece um arquivo de trinta anos, com turnês, discos e mudanças de formação que documentam como um gênero importado se tornou local.

O que fica dessa história

O reggae italiano não nasceu de uma imitação, mas de uma série de encontros: sound systems que importavam discos, bandas que traduziram o gênero para o italiano e para os dialetos, e um sul que usou a batida jamaicana para falar de si mesmo. Os Sud Sound System são o ponto mais visível dessa história, e os Morgan Heritage, com os discos posteriores ao Grammy de 2017, lembram que a cena local nunca deixou de olhar para a Jamaica. O resto é calendário: verão, praça, prevendita e público em pé.

Fontes

Os dados reunidos nesta página sobre o reggae italiano, o Sud Sound System e o Salento vêm de uma fonte pública consultada pela redação: a enciclopédia Treccani. O verbete foi lido como ponto de partida para situar o gênero e suas ramificações, sem qualquer vínculo entre o GuiaTere e o site citado. Sempre que possível, confrontamos essas informações com outras referências independentes antes de publicar, e indicamos abaixo o que permanece em aberto para quem quiser continuar a pesquisa por conta própria.

A redação

Helena Vasconcelos · Redatora, montanha, cultura e viagens da serra

Helena Vasconcelos é redatora de viagens e montanha e percorre a Serra dos Órgãos há mais de uma década, primeiro como trilheira, depois como cronista. Assina os guias lentos do Caderno e as crônicas da agenda, sempre com a regra da casa: conferir a rota, citar a estação, voltar a pé.